Entre memórias, música e partilha, a celebração revela que a verdadeira alegria está nos afetos, na mesa dividida e na presença de quem amamos
Tem reclamão xingando o apelo comercial, que tudo virou negócio, que só se pensa em dinheiro, mas seu cartão de boas-festas traz a foto editada do dito-cujo tentando networking. Os mais insuportáveis ainda veem o imperialismo tomando conta do mundo, o Papai Noel era um velhinho empregado da Coca-Cola, o uso de renas endossa os maus-tratos aos animais e o vermelho é originário da bandeira dos Estados Unidos.
Deixa o povo ser feliz!
É o que sou, ainda mais nestes dias em que a memória me povoa com os abraços no quintal lá de casa em gente que só víamos nos fins de dezembro, os parentes que vinham de longe, a meninada se divertindo entre as árvores do terreiro com os brinquedos recém-ganhados.
Em boa hora me submeti à 2ª cirurgia de sinusite, para me refestelar com o aroma do banquete que minha mulher, Flávia, está preparando para esta noite. Trago do berço o nível de exigência, porque tudo ali na nossa simplicidade tinha a coordenação rigorosa de Dona Luzia, minha mãe, tão impecável nas panelas que o talento não coube em si e tomou conta de Aline, minha filha, chef de cozinha de primeiríssima.
Uma honra sem tamanho conviver com 3 mulheres tão maravilhosas. Com Flávia e Aline, vamos erguer um brinde à Dona Luzia. Merecidíssimo.
Afinal, a mesa da ceia desde a infância era como se via nas propagandas. Sucos, refrigerantes, leitoa, peru, frango, farofa de miúdos, arroz de forno, maionese caseira, salada e carneiro assado. Ufa, deu até fome. Sobremesas deliciosas, especialmente pudim e ambrosia. E muito mais, porque tudo era no capricho.
Dona Luzia e Seu Avelomar se esforçavam por algo que repassaram aos filhos, o compartilhamento –e não é no sentido redes sociais do termo. Preparava-se a comida numa só leva e a maioria entregávamos a famílias humildes como as que moravam em barracos improvisados próximo à estrada de ferro, com a freguesia de sempre tratando minha mãe pelo nome.
Meu pai se encarregava das cestas básicas, que filhos e sobrinhos ajudávamos a distribuir nas ruas junto com os brinquedos. O meu inesquecível, que deve ter corroído o contracheque de Avelomar Noel, foi um trenzinho elétrico, sonho da molecada surgido nas prateleiras por aqueles dias. Modinha frustrante, como todas: os carrinhos eram arremessados para longe nas curvas, independentemente de sua velocidade.
Inolvidáveis para valer, que apertam a saudade, são as cenas de meu pai sentado na sala, a sanfona de 8 baixos saída agorinha mesmo da intocável capa. A moçada parava no atacado, movia apenas os maxilares, pois é possível conciliar o prazer da audição com o do paladar.
Encaro o teclado a pensar, tentando a próxima frase, me vêm à mente o seu sorriso e o seu dedilhar de teclas e botões na pé de bode. Do vasto repertório, me sinto agora a degustar “Boas Festas”, o retrato em versos pintado por Assis Valente.
Eram os anos 1960, o Papai Noel colocava nossos presentes nas meias penduradas no alpendre e não o víamos. Só depois, quando isso não mais importava, descobriríamos que o bom velhinho a nos trazer a felicidade era unicamente o Seu Avelomar. Noel, coitado, só se fosse o Rosa. Assis Valente pensou que todo mundo fosse filho de Papai Noel, que traria o que pedíssemos. Conclui-se que a felicidade é brincadeira de papel ou um brinquedo que não tem, que não existe.
Tem, sim. Existe, sim. A beleza da criação poética é admirável, todavia felicidade está nas brincadeiras de papel, na reunião das pessoas que se amam e às vezes não conseguem se encontrar com frequência, nos votos de que o semelhante fique bem, no esforço de combater a vaidade, na conciliação ao redor da mesa a celebrar o Cristo nosso irmão, que veio, vive e voltará.
Felicidade é o que move este momento, enquanto revejo a minha mãe a assistir embevecida ao show de todos os Natais, com seu astro já numa 120 baixos.
De 6 de novembro a 6 de janeiro de todos os anos, como já escrevi aqui, exponho no escritório um presépio esculpido pelo excelente artista plástico português Antônio Poteiro. A imaginação coloca ali minha mãe observando seu músico a dedilhar, ambos tão lindos e vívidos quanto residem em meu coração.
Feliz Natal!
P.S: Se puder, toque sanfona para sua família, cante junto com seu velho, observe sua mãe como Poteiro captou o olhar de Maria na direção do bebê Jesus.